A polêmica que envolve a produção de carne no Brasil

A polêmica que envolve a produção de carne no Brasil

A alimentação sustentável é nos últimos anos um assunto muito discutido e debatido entre profissionais da gastronomia, como chefs que levantam a bandeira da “criação humana” e respeitosa do animal, assim como a valorização do pequeno produtor. A cada ano a necessidade de produzir mais comida para atender a demanda aumenta consideravelmente, e são raras as vezes que pensamos nas consequências disso.

Falando sobre a produção de carnes no Brasil, considero fundamental inicialmente compreendermos o panorama atual. Como dito acima, a demanda por comida aumenta em um volume significativo, e consequentemente a indústria precisa produzir de forma mais rápida, e claro, lucrativa. Diversas pesquisas e estudos foram e ainda são feitos para controlar e aprimorar a produção de carne visando a alta produtividade, rendimento e seus custos.

Partindo desse cenário (da produção de carnes de forma mais rápido e mais barato) temos obviamente vários pontos negativos. A criação dos animais hoje está cada vez mais distante do campo, ou seja, de suas origens. As condições de vida desses animais são alvo de constantes protestos, sendo questionado a sua alimentação, a vida em um ambiente artificial e o confinamento.

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Essa criação humanitária de uma carne sustentável é defendida por inúmeras pessoas, inclusive por esse site. Para extrair a melhor carne possível, é comum animais viverem em pequenos espaços, se locomovendo o mínimo possível para evitar a criação de músculos, e em alguns casos sem a exposição a luz. É fato que a criação em massa, nas condições descritas acima, é muito mais rentável que a criação do animal livre. A prioridade é criar o animal a um custo mínimo, ou seja, no menor tempo possível.

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Na produção de carnes dois pontos são extremamente polêmicos, o uso de hormônios e antibióticos, que gera enorme preocupação aos consumidores. No primeiro caso, os hormônios são usados para acelerar o crescimento dos animais, controlar a proporção de gordura e também a alteração do peso, criando animais mais magros ou gordos. Felizmente no Brasil é proibido por lei utilizar em animais quaisquer tipos de hormônios.

Os antibióticos, também alvo de uma série de questionamentos, são frequentemente usados nos animais pela indústria, com o objetivo de controlar e evitar a transmissão de doenças. Com isso, o crescimento mais rápido do animal é garantido. A maior preocupação em torno do uso de antibióticos nos animais, é na presença de resíduos do mesmo na carne que chega para o consumidor. A indústria afirma que a margem de segurança é alta, e que são eliminados antes dos produtos chegarem as pessoas. Entretanto, alguns países da Europa e o Japão, já restringem o uso, pois existem registros de bactérias que criaram resistência sobre os antibióticos e que são mais difíceis de controlar, causando grande risco para o consumidor final.

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Sabemos que produzir uma carne com alta qualidade é uma difícil missão pois envolve uma série de fatores essenciais. O modelo de criação atual dos animais para corte consiste em alimentá-los ao máximo possível, poupa-los de exercícios e abate-los ainda jovens. Esse questionado modelo (com razão), produz uma carne que difere negativamente em todos os sentidos para a carne de um animal criado livre. Uma das principais características de uma carne de qualidade é o sabor, que se desenvolve ao longo do tempo, e num cenário onde os animais vivem cada vez menos, o resultado é uma carne bem menos saborosa. As carnes também são mais magras, e com isso a tendência é secar com maior facilidade durante o cozimento.

O uso de antibióticos e hormônios (esse proibido por lei) são os protagonistas dos questionamentos sobre a produção de carne, porem, existe um fator ainda mais importante e questionável: o sabor e a qualidade. Sabemos que a matéria prima de uma boa comida é um bom ingrediente, e a carne de um animal criado livre é consideravelmente mais saborosa que a de um animal criado nos grandes frigoríficos sob condições que aceleram o seu desenvolvimento.

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Todos produtos/ingredientes de qualidade passam por um processo minucioso de produção e controle, e com as carnes não é diferente. O mesmo serve para um legume, pois, um tomate produzido em uma pequena fazenda e amadurecendo no tempo certo, certamente terá mais sabor que um tomate produzido em uma grande fazenda e retirado da terra antes da hora.

Um outro fator e não menos importante, reforça ainda mais a preferência de muitas pessoas por uma carne sustentável. A alimentação (dieta) do animal influencia fortemente a qualidade nutricional da carne, e isso é ignorado pela indústria, que trabalha em busca de um produto com o mínimo custo possível. Um animal que teve acesso a uma alimentação natural fornecerá uma carne muito mais saudável com altos níveis de vitaminas, antioxidantes e etc.

Em tempos onde várias empresas trabalham cada vez menos pela qualidade de sabor e nutricional do produto, visando apenas o lucro, a rentabilidade e a agilidade do processo, é fundamental o consumidor final (nós) atentar para todos os fatos listados, uma vez que um alimento mais gostoso e mais nutritivo é indiscutivelmente melhor e algo que todos nós buscamos.

Faça você o teste. Coma uma carne sustentável, de um animal bem-criado, e perceba o quão superior é o seu sabor.


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