A lamentável e incoerente lei que até hoje proíbe a venda do queijo minas fora do estado.

A lamentável e incoerente lei que até hoje proíbe a venda do queijo minas fora do estado.

Foto: Rust Marcellini

Foto: Rust Marcellini

Para a criação de um produto diferenciado e de boa qualidade, são fundamentais algumas técnicas de produção que devem ser sempre preservadas. Mas não bastam apenas essas técnicas, o “feito à mão” com carinho e amor também são quesitos essenciais para um bom produto. O Queijo Minas que é um patrimônio da gastronomia mineira, se encaixa perfeitamente nesse “modo de fazer”, e esse é o motivo principal para ele ser um queijo diferenciado e único. Queijo tão saboroso, que tem sua existência seriamente ameaçada. Como pode isso?

Partindo de uma lei criada por Getúlio Vargas na década de 1950, um decreto federal no ano 2000, estabeleceu regras rígidas para a produção do queijo, e proibiu a venda do mesmo para fora do estado. O motivo? Pelo fato do leite ser “cru”, ou seja, não passar por nenhum processo de pasteurização. Até ai tudo bem, se não fosse o show de incoerências sem sentido e inexplicáveis, e a falta de bom senso.

A produção do queijo minas possui uma tradição de 300 anos, onde os atuais produtores aprenderam com os pais e avós, e até hoje preservam a maneira de fazer desse maravilhoso queijo. Como diz o seu próprio nome, o queijo é “Minas”, e o terroir como em qualquer ingrediente, influencia completamente. O solo e as condições climáticas das regiões produtoras do queijo minas (Serro, Canastra, Araxá, Cerrado e Campo das vertentes) proporcionam identidades únicas. Uma série de regras rígidas e absurdas foram estabelecidas para a venda do queijo fora do estado, tendo em vista que se os produtores se adequarem estarão fazendo e vendendo outro queijo sem ser o queijo minas original.

Foto: Rusty Marcellini

Foto: Rusty Marcellini

É preciso entender que o “leite cru” é essencial para a produção do queijo minas. Ele fornece ao queijo sabores mais complexos e uma cura melhor e mais rica. Não existe queijo minas feito com leite pasteurizado, e muito menos queijo minas maturado por 60 dias (onde ficaria muito duro até mesmo para ralar) como obriga a lei federal. Feito isso, todas as características do queijo iriam se perder.

Percebem que a lei estadual é uma, e a federal é outra.  A lei mineira permite a venda do queijo com 21 dias de maturação, e a leite federal permite a venda do queijo feito com leite cru para fora do estado, mediante uma série de regras desnecessárias, entre elas a maturação de no mínimo 60 dias. Ou seja, uma legislação permite os mineiros a comer e vender o queijo garantindo não fazer mal, enquanto a outra proíbe a venda e consumo do queijo fora do estado de MG. Qual é a diferença que os mineiros têm para o restante do Brasil que ainda não me informaram?

Então quer dizer que o queijo minas não faz mal para o mineiro, mas faz mal para o resto do Brasil?

Foto: Rusty Marcellini

Foto: Rusty Marcellini

Veja bem a incoerência sem explicações. Em São Paulo, Rio e no restante do Brasil, queijos franceses e italianos feitos com leite cru, podem ser vendidos e consumidos a vontade, sem nenhuma proibição. O leite do queijo francês e do italiano é tão cru quanto o usado no leite no queijo Mineiro. Como explicar essa situação, que chega até ser cômica de tão contraditória?

Várias pesquisas já foram feitas, e comprovaram que o gado sendo tratado da maneira correta, com a vacinação em dia, é possível evitar qualquer tipo de contaminação. Um estudo da UFV – Universidade federal de Viçosa comprovou que 21 dias de maturação do queijo são necessários para um consumo sem riscos de contaminação. Mas parece que é muito mais fácil para o governo, simplesmente proibir a venda pra fora de MG, do que se apegar nas pesquisas e fiscalizar a produção do leite adequadamente.

A partir do momento que a venda do queijo minas pra fora do estado foi proibida, as 30 mil famílias produtoras foram completamente prejudicadas e amargaram um prejuízo enorme. Muitos deixaram de produzir, outros produzem por simples paixão, e outros passaram a produzir apenas o leite, que gera um lucro bem maior. Como querem que pequenos produtores se adequem a quantidade absurda de exigências da legislação? É preciso acima de tudo bom senso.

foto blog

Essa proibição absurda da venda do queijo pra fora do estado que já dura anos, e até agora não foi modificada, influencia o Mercado Negro do queijo, ou seja, muitos queijos saem do estado clandestinamente, enriquecendo os atravessadores, e criando um problema a mais para o governo. Os legítimos queijos mineiros artesanais encontrados fora do estado de Minas Gerais são na maioria das vezes de comércio clandestino.

É importante ressaltar que não estou sendo contra as fiscalizações, muito pelo contrário, além de achar que é fundamental fiscalizar não só o queijo, mas tudo no Brasil, deve haver bom senso acima de qualquer coisa. Estamos perdendo a oportunidade de transformar o queijo minas em um produto de consumo e sucesso mundial, assim como fez a França com seus queijos. Por causa de uma série de incoerências lamentáveis, vaidades e descaso total pela situação, a produção de um patrimônio cultural imaterial brasileira está mais do que ameaçada.

Pensem na quantidade de empregos e renda que a produção do queijo para escala nacional/mundial poderia gerar, pensem na exibição internacional que poderíamos ter divulgando o queijo mundialmente, e tratem com carinho um assunto que deveria ter mais atenção. Não me venham dizer que o queijo minas industrializado é a mesma coisa que o artesanal, porque o “feito à mão” sempre foi, e sempre será inúmeras vezes melhor, pelo simples fato de que para fazer um bom produto ou fazer uma boa comida, não é somente seguir uma receita.

Um abraço, um beijo, e um pedaço de queijo.

[ATUALIZAÇÃO] A vitória do Queijo! Finalmente o queijo minas poderá ser vendido fora do estado de Minas Gerais http://www.labpixel.com.br/petit-gastro/2013/08/a-vitoria-do-queijo-finalmente-o-queijo-minas-podera-ser-vendido-fora-do-estado-de-minas-gerais/


Comentários

  1. Gustavo Rimolo disse:

    Olá Pedro, tudo bem?
    Parabéns pelo excelente texto!!
    Confesso que não conhecia esta lei federal. Lastimável! Estou impressionado.
    Nossos produtores não tem força para se unir e tentar chamar a atenção do congresso?
    Um abraço e até o próximo texto!!

  2. Moroni Rocha disse:

    Eaí Pedro!
    Cara, não sabia que a venda desse queijo era proibida em outros estados… concordo com todos os pontos apontados por você no texto! Valorizamos o de fora e censuramos o nosso produto.

    • antonio carlos da silva disse:

      olha. como esse queijo desde de criança e nunca me fez mal ,esse nosso governo e uma piada a muito tempo,,,a nossa vigilancia sanitaria ,na verdade corre atraz de impostos e não atraz da saude do povo brasileiro .sou brasileiro nasci santo amaro são paulo,mais nunca morei la moro em cerquilho são paulo …tenho cinquenta anos e ainda estou vivo comendo o queijo mineiro,a qual e uma culinaria riquissima ,,acorda brasil….

  3. Pedro Vallinoto Neto disse:

    Caro Pedro
    Antes demais nada parabéns pela iniciativa pertinente e comentário sagaz acerca de uma incoerência de um governo incapaz de dimensionar o enorme prejuízo causado com este desserviço, que de tão incoerente, chega a ser jocoso.
    O queijo Minas é antes de mais nada Brasileiro, e deve ser degustado por todos os brasileiros da maneira tradicional como é produzido a séculos, e a importação adequada e segura deveria ser a busca deste governo que faz de sua inépcia a realidade injusta para todos nós defensores das nossas raízes..
    Lembro que existe na minha região, norte do Brasil, no estado do Pará: o queijo da Ilha do Marajó, feito com leite de búfalo. O governo deveria era enaltecer estes valores nacionais, difundi-los mundialmente, e, não fazer leis como esta incoerente e absurdas descrita por você com muita coerência.
    Atenciosamente,
    Pedro Vallinoto Neto

    • Pedro Frade disse:

      Olá Pedro,

      Obrigado pelos elogios. A minha ideia foi exatamente o quanto é incoerente essa lei, e o tanto que os nossos produtos estão sendo prejudicado.

      Grande abraço!

  4. Pedro Vallinoto Neto disse:

    Errata: exportação

  5. Robert Maia disse:

    Fala Pedro, tudo bom? Então, Queijo Minas não existe industrializado, pelo simples fato de não existir queijo Minas de leite pasteurizado. E todo mundo sabe que queijo Minas curado tem no máximo 5 semanas de cura. Eu já apertei muito queijo na fazenda que meu pai tinha, e é isso mesmo. O leite tem que ser cru, tem que ser tirado na própria fazenda, tem que coalhar de acordo com o recomendado, tem que cortar a massa, escorrer ela pra tirar o excesso de soro, enformar e apertar pra sair o soro, pois soro estraga o queijo. Fazia queijo manualmente, com formas feitas de cano de PVC de 200 MM cortado, sem fundo e sem prensa. E o que a gente fazia era salga a seco (sem mergulhar na salmoura, pra quem não sabe a diferença). Hoje eu moro em SP, e vejo o quanto o povo daqui fica maravilhado quando eu trago queijo artesanal na minha bagagem (eu não sabia sinceramente que isso era proibido, sinceramente). E governo, um recado: nem pão de queijo fica bom com queijo com 60 dias de cura, é incomível um queijo desses, nem bicho dá pra ter ideia de tão duro que fica, pra ralar tem que usar uma lixadeira.

    • Pedro Frade disse:

      Exatamente Robert,

      O queijo Minas verdadeiro é o feito nas fazendas, e que é proibido fora de MG. Fora esse, o resto não é queijo minas.

      Infelizmente a gente conta com um lei completamente incoerente, e que prejudica e muito o produto.

      Grande abraço e obrigado pelo acesso ao blog!

    • Oduvaldo disse:

      Até que enfim, um Comentário Inteligente, de alguém que SABE O QUE É, AINDA, COMO É FAZER UM “SIMPLES” QUEIJO!!!!!!!!!!!

  6. Emilio de Andrade disse:

    Oi Pedro,
    Incrível, esta proibição é uma das maiores burrices “legalizadas”.
    Por favor, qual é o queijo (região e tempo de cura) ideal para a produção do tradicional pão de queijo mineiro?
    Ah! Eu e família estamos montando uma pequena fábrica automatizada na Grande-BH.
    Obrigado.

    • Pedro Frade disse:

      Olá Emilio,

      É lamentável essa proibição, algo absurdo.

      Para preparo da receita do pão de queijo tradicional, não existe especificamente um queijo de determinada região. O importante é ser de minas, e não ser muito fresco, ter ai uma maturação de uns 25 dias…

      Abraços, Pedro Frade.

  7. […] A lamentável e incoerente lei que até hoje proíbe a venda do queijo minas fora do estado. […]

  8. Oswaldo disse:

    Olá, Pedro.
    Esse desvario, originado na cabeça de oligofrênicos, gera essa coisa perversa e tão complexa que é a perda, não só da renda, mas e principalmente da memória de um povo, das tradições e característica que personalizam e dão caráter a uma região. Não sou mineiro, sou carioca. Mas, quando o coração aperta, corro pra Mariana, ouço o silêncio do convento, como um bambá de couve e, de tarde, meu cafezinho preto com um pedaço de queijo, bem mineiro. Não é só casario, o jeito das gentes, o som das coisas, mas e principalmente o gosto do café, da broa de milho e do queijo. A serenidade emocional chega de volta, mansa que nem conversa de porta de casa. Essa “lei” chegou e foi embora e não vi. Menos mal, eu levava e levo sempre pra casa meu queijo de minas meia cura, frescal ou o que me der na telha e no gosto, assim como qualquer passante que vive essa riqueza cultural que são as Minas Gerais. Um abraço.

  9. arteiro bezerra alves disse:

    bom dia como faço para comprar queijos

  10. realmente incoerência pura, sempre comi destes queijos e nunca fiquei doente, eh como os doces caseiros que são muito melhores que os industrializados e temos dificuldade de vender, eu faco isso e tenho que batalhar muito a venda das minhas iguarias, feitas com amor, e limpeza.

  11. marcelo roberto disse:

    Isso só prova que uns poucos podem ser bem mais fortes que muitos

  12. Nilton Souza disse:

    Deveriam proibir o excesso de SAL.

  13. Phelippe Sena disse:

    Na verdade somos nos que temos que saber escolher nosso queijo, pois a quantidade de sal e bem particular para cada consumido, concordo que temos muitos queijos salgados, mas ainda sim estamos sercados de queijos divinos e saborosos cabe a nos saber onde e de quem compra.

  14. Onde estão os DePUTAdos e senadores mineiros que não conseguem mudar uma Lei ???

  15. marilene disse:

    gostei da publicação como foi dito o toque da mão faz o diferencial em qualquer área gastromênica.desde que aqueles que trabalhem com o produto tenha o senso de limpeza um beijo e um queijo.

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